“Knowledge is not free. You have to pay attention.”Richard Feynman
Para Feynman, nossa atenção é o recurso que usamos para apreender algo, para desenvolver uma habilidade. Não basta comprar um curso ou um livro sobre o seu tópico de interesse se você não tem tempo para dedicar sua atenção àquilo. Livros como O Talento é Superestimado e Outliers trazem, em resumo, a ideia de que a prática deliberada é o fator de maior impacto na excelência de uma atividade. E toda prática deliberada exige atenção.
Mas não é só no âmbito do desenvolvimento pessoal que a atenção importa. Também precisamos dela para manter relacionamentos saudáveis com nossos entes e amigos queridos.
É essa mesma atenção que hoje é disputada por algoritmos feitos especialmente para capturá-la; por propagandas direcionadas exatamente para os seus gostos (afinal, agências de marketing já admitiram a prática de escuta ativa em celulares); por inúmeras telas capazes de liberar um pouquinho de endorfina quando assistidas, tentando nos viciar, nos levando ao doom scrolling e sugando sem dó a nossa já limitada atenção.
A atenção é um recurso finito
E sim, nossa atenção é limitada. É um recurso que pode ser renovado depois de um bom descanso, mas ainda assim é finito. Pela minha experiência, eu diria que a atenção também pode crescer em grandeza e qualidade da mesma forma que treinamos um músculo: com a prática.
Porém, vivendo numa era em que a Inteligência Artificial predomina, temos cada vez menos estímulos para exercitar essa atenção — que, tal qual treinar um músculo, exige tempo e esforço. Com a IA sendo a principal interface para a maioria dos nossos problemas digitais, nos esforçamos cada vez menos para chegar a um resultado. O que antes era uma busca no Google — e era preciso pensar bem os termos da busca para aumentar a qualidade da resposta — hoje se resolve com muito menos esforço. É claro que, quanto maior o cuidado na construção do prompt, melhor será a resposta; mas é possível chegar lá mesmo com prompts “desqualificados”.
O novo gargalo é o entendimento
Veja: não faz muito tempo, um dos maiores gargalos do desenvolvimento de software era a criação do código. Tudo era escrito à mão. Todo nome de variável e de função importava, e mantínhamos sempre em mente as melhores práticas de design para manter a carga cognitiva baixa. Era um processo que demandava muita atenção — ainda demanda, mas hoje escrevemos muuuuito menos código do que há um ou dois anos. Em compensação, tínhamos controle total das operações, prestávamos muita atenção àquilo e logo desenvolvíamos um entendimento profundo da codebase.
Hoje se chega ao mesmo resultado sem prestar tanta atenção, usando IA. Mesmo com prompts simples, as ferramentas conseguem gerar código de bastante qualidade — diria até que melhor e mais rápido do que a maioria dos programadores, inclusive eu. Se antes o gargalo estava na criação do código, hoje ele me parece estar no entendimento, na compreensão daquilo que é gerado — porque não dedicamos mais a nossa atenção a isso. Por mais cuidadosos e pensados que sejam os prompts, está cada vez mais difícil para um ser humano revisar o que sai: o volume é gigantesco. O novo gargalo não é mais a criação, mas o entendimento daquilo que é gerado.
Para onde vai a atenção que sobra?
Sendo assim, para onde foi a atenção que antes dedicávamos à criação do código? Ela se dissipa? Essa é uma das perguntas que motivaram este texto, e ainda não encontrei uma resposta satisfatória. Talvez tenhamos a sorte de, finalmente, poder direcionar essa atenção às coisas que realmente importam — os nossos entes e amigos queridos, ou aos assuntos do nosso interesse que nada têm a ver com trabalho.
Seja como for, proteja a sua atenção da mesma forma que protege os seus recursos financeiros — e gaste-a com o que te importa.
Um abraço.
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